Sempre fui uma grande admiradora da Índia, país repleto de religiosidade, deuses, lendas, magia e cores. E esse meu fascínio tem me deixado um pouco triste, pois desde a estréia de uma novela, tenho sido questionada sobre a existência dos “dalits”. Meus amigos e amigas, não entendem como eu posso admirar um país que trata pessoas com tamanha crueldade. Minha resposta para essa indagação é sempre a mesma: “Nós também temos os nossos “dalits”!" E relaciono situações corriqueiras de preconceito que acontecem em nossas casas, com familiares e amigos, e percebo que ficam espantados com a minha argumentação.
Essa semana, após ler o e-mail de um mestre muito querido, e que segue a mesma linha de pensamento que eu, lembrei-me imediatamente de uma situação que vivi há alguns anos atrás.
Na calçada oposta ao prédio onde moro, sempre ficam alguns moradores de rua, e que já foram pauta de reunião de condomínio, uma vez que desvalorizam o nosso imóvel, incomodam as pessoas, e por isso, segundo eles, precisavam ser removidos. Minha reação foi de indignação, mas graças à Deus, mais alguns moradores tinham consciência de que as vias são públicas, e os moradores de rua, tanto quanto nós, podem usufruir delas, e assim, conseguimos abortar essa idéia estapafúrdia.
Pois bem, eu sempre que passava por alí, cumprimentava-os, e um certo dia, parei para conversar com uma mulher que me parecia muito doente, e fiquei sabendo que ela era portadora do vírus da AIDS. Depois desse dia, sempre parava para saber dela, e quando podia, levava alimentos, ou algo que ela tinha vontade de comer. Em um desses dias, perguntei o seu nome. Ela demonstrou-se muito espantada com a minha atitude, e depois de algum tempo, disse que chamava-se Stéfani. Comentei que era um lindo nome, e ela me disse que eu era a primeira pessoa que perguntava, normalmente ninguém tinha interesse em saber o seu nome.
Nesse momento, o sentimento de espanto foi meu, afinal, todos, sem exceção, temos um nome, e devemos ser tratados por ele, ou estou enganada ? Desse dia em diante, me dirigi a ela sempre pelo seu nome, pela sua identidade como ser humano.
É fato, que para a grande maioria das pessoas ilustres desse, e de outros países ocidentais, esses moradores de rua, também são invisíveis, e gostariam de varrê-los para baixo de algum tapete, para não serem vistos, para serem esquecidos. E ao tocarem uma dessas pessoas, imediatamente vem o sentimento de impureza, e a tentativa de remover qualquer vestígio do contato físico que tiveram.
Pois bem meus amigos, acho que aqui encerro essa reflexão, porque acredito que cada um de vocês, assim como eu, também tenham situações até corriqueiras, onde o preconceito é visível e palpável.
Na minha humilde visão de vida, a única diferença entre os “dalits” da Índia, e os “dalits” dos países ocidentais, é a autenticidade, a capacidade de assumir os seus próprios preconceitos, e não fazer de conta que eles não existem. Quando assumirmos a sua existência, ficaremos mais próximos da sua extinção.
Namastê
Nenhum comentário:
Postar um comentário